O encontro da religiosidade com a espiritualidade

O quarto capítulo do evangelho de João narra o encontro de Jesus com a mulher samaritana. Um dos elementos centrais do texto é a “água viva” que Cristo lhe ofereceu. Isto nos leva a um pressuposto fundamental: a sede, como evidência de uma necessidade básica do ser humano.

O homem é composto por corpo, alma e espírito (1Ts 5.23; Hb 4.12). Assim, temos três tipos de sede ou necessidades: físicas, emocionais e espirituais. A parte física nos assemelha aos animais. O emocional nos distingue como humanos. O espiritual é semelhante ao divino. As tentações de Cristo no deserto envolveram essas três áreas (Mt 4.1-11). Reconhecemos facilmente as necessidades físicas e emocionais, mas a espiritual nem sempre é considerada. Muitos vivem em função das necessidades físicas e emocionais apenas, e nisso investem todo o seu tempo, esforço e dinheiro. O homem é mais voltado para o físico. A mulher, para o emocional. Vivemos no tempo do culto ao corpo. Podemos, inclusive, estar cometendo o erro de buscar a Deus apenas para que ele nos atenda nas questões físicas (Jo 6.26) e emocionais. Ele nos abençoa nessas áreas, mas a sua prioridade é o nosso espírito.

A mulher samaritana demonstrou esses três tipos de necessidade. A necessidade física se relaciona à água que ela foi buscar no poço (Jo 4.7). A necessidade emocional se evidencia nos seis relacionamentos conjugais daquela mulher (Jo 4.18). A necessidade espiritual se apresenta no questionamento a respeito da adoração (Jo 4.20). Em todos os casos, a mulher não se sentia satisfeita ou saciada. Embora tenha passado pelas questões físicas e emocionais, Jesus conduziu a conversa para a vida espiritual quando disse: “Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (Jo 4.23). O ser humano procura saciar sua sede espiritual através da religiosidade ou da espiritualidade. Muitas bebidas pretendem matar a sede, mas podem representar falsas soluções. O texto de João 4 fala do encontro da mulher samaritana com Jesus, mas podemos dizer também que foi o encontro da religiosidade com a espiritualidade. Costumamos confundir estes conceitos, mas são muito diferentes. Pensamos que uma pessoa religiosa é espiritual, mas pode não ser.

A religiosidade consiste na prática de atos exteriores, rituais, obrigações, costumes e tradições como atitudes de busca ou culto a alguma divindade. A verdadeira espiritualidade, porém, se manifesta através de um modo de vida em que o espírito domina a carne (1Co 2.14; 3.1-3; Gal.5.16). O religioso se caracteriza pelo fazer. O espiritual, pelo ser. O religioso supervaloriza lugares, objetos sagrados, gestos e expressões. O espiritual prioriza e demonstra o amor a Deus e ao próximo. A mulher samaritana estava preocupada com o lugar de adoração: no monte ou em Jerusalém, mas Jesus chamou sua atenção para a essência. A religiosidade inclui muitas atividades físicas com forte apelo emocional que podem, eventualmente, não ter participação alguma do espírito. Como disse Jesus: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15.8). Nesse contexto, o “coração” não é um órgão físico, mas uma referência simbólica ao interior do homem.

Podemos comparar a religiosidade à frequência de um aluno à escola. Então, a espiritualidade seria semelhante ao interesse pelo conhecimento. Ambas as coisas nem sempre estão juntas.Se compararmos a religiosidade às tarefas domésticas realizadas por uma esposa, a espiritualidade seria semelhante ao amor pelo marido, ou seja, a essência do relacionamento.Não vamos eliminar os aspectos exteriores do culto, mas precisamos estar conscientes de que, sem a verdadeira espiritualidade, eles serão tão inúteis quanto lâmpadas sem luz. Práticas religiosas podem ser realizadas para a aquisição de coisas materiais, mas a verdadeira espiritualidade nos liberta do materialismo. Foi o que aconteceu com os irmãos da igreja primitiva (At 2.4,45). É o que aprendemos também com a parábola do tesouro no campo e a pérola de grande preço (Mt 13.44-46). Ao conhecer, de fato, a realidade do reino de Deus, o homem se desapega das coisas deste mundo. Embora continue precisando delas, deixa de ser escravo da ambição.

A religiosidade produz um perigoso sentimento de dever cumprido. Fizemos quase nada para Deus e já estamos satisfeitos. Pior do que isso é pensar que o Senhor também esteja feliz conosco. Ir à igreja uma vez na semana, dar uma oferta ou ler um versículo podem ser atitudes mínimas que nos satisfazem, mas não atendem à vontade de Deus. Discutir aqui sobre tempo e quantidade pode não ser proveitoso, porque a religiosidade pode se manifestar também através de grande dedicação, mas o que vai satisfazer ao Senhor é uma vida em busca da santidade. O texto nos permite deduzir que a mulher samaritana era religiosa, mas estaria Deus satisfeito com isso? Jesus disse que o Pai procura os verdadeiros adoradores. Portanto, ele ainda não estava satisfeito.

A mulher samaritana era religiosa, mas seu modo de vida não agradava a Deus. Faltava-lhe a verdadeira espiritualidade. Como sabemos disso? Por causa de sua vida sexual irregular. Disse-lhe Jesus: “Cinco maridos tiveste e o que agora tens não é teu marido” (Jo 4.18). Esta área da vida, sob controle ou descontrolada, pode servir como indicador (mas não o único) da condição espiritual do indivíduo (2Pd 2.14). Não basta acreditar em Deus e fazer coisas para ele. Precisamos viver de modo agradável ao Senhor. Não adianta ser crente e viver na prostituição, no adultério ou na desonestidade.

Podemos ilustrar religiosidade e espiritualidade por meio de alguns elementos do quarto capítulo de João. A religiosidade seria representada pelo apego da mulher a um personagem morto, Jacó, enquanto estava diante dela o Cristo vivo. A religiosidade focaliza o passado (Jo 4.12). A espiritualidade nos sintoniza com a eternidade (Jo 4.14). A religiosidade é simbolizada pelo poço. A espiritualidade, pela fonte de água viva. O poço requer muito esforço humano para retirar água. A fonte produz uma água que “salta para a vida eterna”. Afinal, é água viva. Esta é a diferença entre o que fazemos para Deus e o que Deus faz dentro de nós de tal maneira que flui do nosso interior em benefício dos que nos rodeiam.

Estamos muito presos aos níveis físicos e emocionais e podemos confundir tudo isso com espiritualidade. Jesus convidou a mulher samaritana para um nível superior, ou seja, aquele onde ele mesmo vivia, além da religião e dos religiosos. O capítulo 4 de João nos mostra Jesus superando João Batista, e aos fariseus e aos seus próprios discípulos (Jo 4.31-34). Isto seria de se esperar, mas os religiosos ficavam muito incomodados com o fato (Jo 4.1). Enquanto Jesus conversava com a mulher samaritana, os discípulos foram comprar comida. Quando chegaram e ofereceram o alimento ao Mestre, este respondeu: “Uma comida tenho para comer que vós não conheceis… Minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4.31-34). Por que Cristo agiu dessa forma? Ele poderia ter comido naquele instante, mas quis ensinar uma lição aos discípulos: o controle do espírito sobre o físico. Certamente, comeria depois, mas deixou claro que ele não era dominado pelas necessidades físicas, ainda que fossem legítimas e corretas. Ele comeria, sim, mas ensinou a esperar o tempo certo. A religiosidade pode ser herdada ou ensinada, mas a espiritualidade vem da experiência pessoal com Deus. Religiões, existem muitas. Você também pode inventar uma, mas a verdadeira espiritualidade está vinculada a uma pessoa: Jesus Cristo.

A mulher samaritana precisou encontrar-se com ele e pedir-lhe a água viva. Muitos encontram o Senhor e são abençoados, mas isso não basta. É preciso ter um compromisso com ele, recebendo-o no coração pela fé, como Senhor e Salvador. Existem também aqueles que precisam renovar o compromisso porque abandonaram a fonte de águas vivas e cavaram suas próprias cisternas (Jr 2.13). Assim como aquela mulher disse: “Senhor, dá-me dessa água”, precisamos também clamar para que Deus nos guie pelo caminho da verdadeira espiritualidade, que vai muito além de costumes e obrigações.

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